quinta-feira, 15 de abril de 2010
Custódio e o mistério do motel 3
- Alô?
- Sim?
- Adiei minha volta a Brasília e preciso te ver...
- Onde?
- O de sempre.
- Quando?
- Hoje.
- OK.
Terça-feira Gorda, tinha combinado de se encontrar com Renato. Ele que entendesse. Tomou seu tempo. Arrumou-se, perfume, maquiagem, batom. Mas porquê o Shrines? Achava que o esconderijo estava velho. Pegou um táxi e em minutos estava lá. Era o arranjo. Pegava a suíte e esperava que chegasse. Não foi o que aconteceu
quarta-feira, 17 de março de 2010
Custódio e o mistério do motel 2
Custódio gostava daquele canto do Rio. Pouco saía dali. Fora criado em outro clima e ambiente. Quando chegou tinha pouca ideia do que iria encontrar. Aos poucos, foi oferecendo seus préstimos em situações difíceis. A mãe brasileira, não foi difícil obter a nacionalidade. Ainda assim teve que enfrentar muita burocracia, o que foi uma certa forma de adaptação. Não era exatamente o que seu pai tinha em mente quando fugiu da ditadura de Salazar.
O começo foi duro. Custódio se dedicava a casos particulares, em geral encontrar objetos desaparecidos, na maioria jóias de família. Nesses casos, apesar de quase sempre o contratante indicar a empregada doméstica como principal suspeita, os responsáveis eram ou o filho drogado, ou a filha vadia, ou a mulher infiel ou o esposo falido.
Um dos objetos mais estranhos que já pediram a Custódio para localizar foi uma boneca inflável, “namorada” do filho doidão de um poderoso industrial. Dizia ele que era a melhor mulher que já tinha conhecido: “Não fala, não reclama e não consome minhas paradas!”. Isso, no entanto, não impediu que o maluco levasse um belo par de chifres. O jardineiro, no maior atraso, tinha pego a boneca e tencionava devolvê-la antes que dessem falta da “namorada”. Um ancinho no barracão de ferramentas, porém, estragou seus planos e ele tentou esconder o “crime” enterrando a dita num canteiro. Nada que um remendo no borracheiro e um pouco de esmalte não tenham resolvido e o doidão pôde continuar vivendo sua história de amor.
Por essas e outras, Custódio decidiu manter distância de casos de traição conjugal, “arroz-com-feijão” de seus colegas brasileiros e “bread-and-butter” dos britânicos. Seu sucessso e discrição em situções do tipo, no entanto, acabaram lhe garantindo fama entre algumas pessoas influentes e, consequentemente, uma sinecura na polícia carioca. Oficialmente era um inspetor e deveria cumprir funções burocráticas de supervisão do trabalho dos detetives. Na prática, tomava conta da feira de difícil lida.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Custódio e o mistério do motel 1

Eram duas da manhã quando Custódio acordou sobressaltado com o telefone. Do outro lado da linha, imediatamente reconheceu a voz do delegado Pedrosa.
- Custódio?!
- Sim delegado...
- Preciso que você vá imediatamente para o Motel Shrine, lá na Niemeyer!
- Mas doutor, meu plantão é só no domingo...
- Não interessa, depois a gente acerta. É um daqueles abacaxis que só você pode descascar. Chegando lá o Palhares te explica tudo.
- Sim senhor, já estou indo.
Desde que entrou na polícia, há 10 anos, caíam nas mãos de Custódio os abacaxis, pepinos, batatas quentes e todas as outras analogias com frutas, legumes e tubérculos de difícil lida que se possa imaginar. Era o preço a se pagar para ficar na Delegacia do Leblon, perto de casa e da praia, razão principal porque tinha trocado a gélida Londres pelo por vezes sufocante Rio de Janeiro.
A essa altura, Custódio poderia ser delegado, mas, além da política em torno do cargo, isso significaria ficar longe do Leblon. Assim, resolvia os casos mais difíceis para os chefes e eles o deixavam quieto no seu canto. Afinal, para o delegado Pedrosa, o detetive Palhares e o carcereiro Pimenta – a quem particular e carinhosamente apelidara dos “Três ‘Ps’ da Porrada” – técnicas de investigação se resumiam a paus-de-arara, choques elétricos, baldes d’água ou qualquer outra forma de fazer porcos confessarem ser coelhos, o que para muitos casos era o que bastava. Como dizia Pedrosa: “Esses caras, se ainda não fizeram merda, vão fazer”.
Para uns poucos, o “corretivo” servia de lição e eles nunca mais passavam por uma delegacia. Para outros, era o momento da confissão, que nada adiantava devido aos inquéritos frouxos que resultavam na não abertura de processos nos tribunais. Para a maioria, no entanto, só servia para aumentar a revolta. Esses quase invariavelmente acabavam de volta no sistema penal ou no IML com três tiros na cabeça e um auto de resistência assinado por um PM. “Isso sim é que é polícia”, pensaria um cidadão ingênuo diante de tamanha precisão nos disparos.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Comércio de Ano Novo

Trocam-se antigos sentimentos por novas emoções,
velhas idéias por atitudes frescas,
dúvidas mofadas por decisões colhidas
Trocam-se antigas crenças por novas esperanças,
amores perdidos por desejos nascidos,
delírios secos por deleites molhados
Trocam-se antigas palavras por novos verbos,
posições congeladas por movimentos fluidos,
poses empalhadas por posturas inteligentes
De volta, com direito aos gêmeos e tudo. Vão lá!
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Soltando o verso
I see you but you don’t see me
PONTOAperto por pensar perto
Podes pedir paz
Pouco peço
Paro e espero
Parece que importas
Passas à parte
Pisas pequeno
Praticas aproximado
Paralisas no paraíso
Pira sem piripaque
Porta aparece
Para pacato perdão
Perdes o pudor
Aproveitas o pleno
Palavras e promessas
Ponto
......................................................................................................
Palpite infeliz
Estúpido coração
Que palpita sem razão
Troca uma sensação
Pela falta de noção
Sabe que mente
Tão somente
Pára no caminho
Batendo sozinho
O que complica
É o que fica
..............................................................................................................
Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste
em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um
pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente, que nunca desiste
de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração
que acha que Tim Maia
estava certo quando escreveu...
"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,
é isso que eu espero...".
Um idealista... Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece e mantém sempre viva a
esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando
relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer
sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome
de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional
que abre sorrisos tão largos que quase dá
pra engolir as orelhas, mas que
também arranca lágrimas
e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado
por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para
quem quer viver intensamente
contra indicado para os que apenas pretendem
passar pela vida matando o tempo,
defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras
e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer
para São Pedro na hora da prestação de contas:
"O Senhor pode conferir. Eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e
se recusa a envelhecer"
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por
outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate
tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda
não foi adotado, provavelmente por se recusar
a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio,
sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento
até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar,
mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence
seu usuário a publicar seus segredos
e a ter a petulância de se aventurar como poeta
(Clarice Lispector)
Moon e Bá, de novo para ilustrar. Quer mais? Aqui
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Beijo, me liga!
- Numdônão...
- Mas por quê?
- Ora, é seu papel me conquistar.
- E o seu?
- O meu é te provocar...
..........
- Me dá um beijo!
- Como assim? Peraí...
- Ué? Não era conquista?
- Mas invasão bárbara não!
..........
- Me dá um beijo?!
- Hein?
- Esquece...
- Tudo bem...
- Mmmmmmmmmmm...
..........
- Mmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
- Mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
- Queria te contar...
- Cala a boca e me beija!
- Mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...
(Melhor pedir perdão que permissão)

"Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.
Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.
Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.
Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.
Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.
Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.
.........
Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca."
(Trechos de "Besos", por Gabriela Mistral)
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mudanças de comportamento
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
...
Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional..."
(Trechos de "Definitivo" - Carlos Drummond de Andrade)

Nada muda, ninguém se transforma, por mais que tente. Dias, semanas, meses, anos se passam no processo, porém não é o virar de uma folha de calendário que vai fazer a diferença. Quando a inadequação é o nome e o desejo é o verbo, a decepção invariavelmente surge como o predicado. Será que a questão é reformular esta sentença? Troque seu sujeito, mude seu verbo que o predicado será outro?
Mas como fazer isso quando a mente grita, o coração late e a vontade é incontrolável? Enquanto isso, encantos vão deixando o coração em frangalhos. E os dias, semanas, meses, anos continuam a passar e só resta absorver e digerir cada história.
Nesses períodos, penso se não seria melhor desistir de tudo, retirar-me para uma montanha e virar um ermitão. Ou então me transformar num canalha insensível que não se importa com nada, arrancar o coração do peito e colocá-lo num freezer. Assim, quando tiver uma recaída, bastará abrir a porta e ver aquilo tudo despedaçado para voltar ao bom senso.
Olha os gêmeos aí de novo ilustrando o post. Não sabe quem? Veja aqui!
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Ditadura vida
Por sorte, na mesma época começava o movimento mundial do "politicamente correto". Embora nunca tenha se considerado um "político" (uma de suas primeiras medidas quando tomou o poder foi justamente mandar fuzilar todos que encontrou, num dos poucos momentos em que contou com aplausos do povo), pensou que poderia aproveitar a onda. Protamente ordenou que os (poucos) opositores deixassem de ser assim chamados, passando a ser classificados como "ideologicamente equivocados". Os adversários, por sua vez, viraram os "posicionalmente mal colocados". Já os que ainda conseguiam protestar eram os "vocalmente enganados".
Mas só trocar nomenclaturas não era o suficiente. Travou contato com termos como "responsabilidade social", "ecologia", "sustentabilidade" etc. E foi esta última que passou a ser objeto de sua obsessão. Determinou então que tudo em seu país deveria ser "sustentável", a começar pelas políticas de governo.
Cancelou todos os fuzilamentos. A alegria - e alívio - do povo, porém, durou pouco. logo decretou que as execuções deveriam ser por enforcamento. Afinal, eles iriam estimular o plantio de árvores para pendurar os condenados, de sisal para fazer as cordas etc. Além disso, os corpos poderiam ser usados como adubo, sem o risco da contaminação da terra por chumbo e outros metais pesados usados nas balas. Ficou feliz: era o criador do primeiro "genocídio sustentável" da história mundial!
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Off topic
I can believe things that are true and I can believe things that aren't true and I can believe things where nobody knows if they're true or not. I can believe in Santa Claus and the Easter Bunny and Marilyn Monroe and the Beatles and Elvis and Mister Ed.
Listen – I believe that people are perfectible, that knowledge is infinite, that the world is run by secret banking cartels and is visited by aliens on a regular basis, nice ones who look like wrinkledy lemurs and bad ones who mutilate cattle and want our water and our women.
I believe that the future sucks and I believe that the future rocks and I believe that one day White Buffalo Woman is going to come back and kick everyone's ass. I believe that all men are just overgrown boys with deep problems communicating and that the decline of good sex in America is coincident with the decline in drive-in movie theaters from state to state.
I believe that all politicians are unprincipled crooks and I still believe that they are better than the alternative. I believe that California is going to sink into the sea when the big one comes, while Florida is going to dissolve into madness and alligators and toxic waste.
I believe that antibacterial soap is destroying our resistance to dirt and disease so that one day we'll all be wiped out by the common cold like the Martians in War of The Worlds.
I believe that the greatest poets of the last century were Edith Sitwell and Don Marquis, that jade is dried dragon sperm, and that thousands of years ago in a former life I was a one-armed Siberian shaman.
I believe that mankind's destiny lies in the stars. I believe that candy really did taste better when I was a kid, that it's aerodynamically impossible for a bumblebee to fly, that light is a wave and a particle, that there's a cat in a box somewhere who's alive and dead at the same time (although if they don't ever open the box to feed it it'll eventually just be two different kinds of dead), and that there are stars in the universe billions of years older than the universe itself.
I believe in a personal god who cares about me and worries and oversees everything I do. I believe in an impersonal god who set the universe in motion and went off to hang with her girlfriends and doesn't even know that I'm alive. I believe in an empty and godless universe of causal chaos, background noise, and sheer blind luck.
I believe that anyone who says that sex is overrated just hasn't done it properly. I believe that anyone who claims to know what's going on will lie about the little things too. I believe in absolute honesty and sensible social lies too. I believe in a woman's right to choose, a baby's right to live, that while all human life is sacred there's nothing wrong with the death penalty if you can trust the legal system implicitly, and that no one but a moron would ever trust the legal system.
I believe that life is a game, that life is a cruel joke, and that life is what happens when you're alive and that you might as well lie back and enjoy it.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Anatomusa

Os olhos são as janelas da alma e as portas do desejo,
As pontes do encontro e os abismos da perdição.
A boca é a flor da calma e o doce do beijo,
O sabor do encanto e a fonte da união.
O cabelo é a trama da rede e a coroa da ambição,
A perfeita moldura e a cor da paixão.
As mãos são o veludo do toque e a dor do empurrão,
As amarras do porto e o abraço da ilusão.
Os seios são o terreno aberto e as montanhas da aflição,
O convite ao descanso e o caminho da oração.
De cada parte sua eu tiro uma lição,
Mas é você inteira quem roubou meu coração.
Na imagem, novamente os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Não foi ainda? Então vá!
domingo, 4 de outubro de 2009
Versões e subversões
Versões podem ser simples plágios. Versões podem ser homenagens. Mas e quando a versão tenta melhorar ou adaptar o original? Quando a versão da história é melhor que o fato, quando se conta um conto e se aumenta um ponto? A versão pode, ou deve, ser uma evolução?Para os nostálgicos e conservadores, a resposta é quase sempre "nunca!". Para os críticos, "às vezes". Mas penso que elas também podem servir o público tomar contato com obras "esquecidas", ampliar horizontes, criar novas associações, ter diferentes perspectivas.
Comecei a refletir sobre o assunto diante da enxurrada de remakes e refilmagens que Holywood vem produzindo nos últimos anos e vai continuar fazendo nos próximos. Para além da falta de criatividade, o que me perturba são realizações que me forçam a concordar com aqueles nostálgicos e conservadores: certas obras não merecem, nem devem, ser "tocadas" ou alteradas.
Só dois exemplos recentes e em extremos, para não me estender muito. De uma clássica alegoria sobre a paranóia comunista e o medo de uma hecatombe nuclear dos anos 1950, "O dia em que a Terra parou" virou um pirotécnico e vazio espetáculo. E o "Alfie" de Jude Law ia bem até chegar a um fim "redentor" e politicamente correto para o misógino personagem original de Michael Caine.
Mas o que me levou a escrever sobre isso foi uma experiência mais pessoal. Há muitos anos cito nas mais variadas conversas uma crônica do Veríssimo, "Grande Edgar", que aborda um problema do qual sofro: não lembrar nomes ou de onde conheço pessoas que me abordam em certas situações. E minha vergonha só cresce com o fato delas se lembrarem muito bem de mim, me chamarem de "Cesinha" na maior intimidade etc.
Pois bem. Esta semana fui reler um daqueles livros que compilam as crônicas do gaúcho, "As mentiras que os homens contam", e logo a primeira delas era justamente esta (e já estou roubando aqui. Claro que só lembrei o nome da crônica por isso...). Achei que a versão que eu conto é mais engraçada e, porque não dizer, "completa" que a original. Estranhei mais ainda a ausência do punchline final que sempre falei e atribuia ao autor. Então quer dizer que fui eu que inventei este punchline?
Não que o texto do Veríssimo não seja brilhante, como sempre é, mas encasquetei e decidi: vou continuar a contar a minha versão e atribuí-la ao consagrado autor. Mentir mesmo. Afinal, se não gostarem da história, melhor que culpem ao Veríssimo do que a mim!
Na imagem, quadro do surrealista russo Vladimir Kush
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Um sonho de irrealidade

Não te conhecia, e já sabia quem você era.
Te encontrei, e já sabia quem você seria.
Conversamos, e já sabia o que você pensava.
Saímos, e já sabia o que você gostava.
Dançamos, e já sabia como você se movia.
Nos beijamos, e já sabia o que você sentia.
Fizemos amor, e já sabia o que você queria.
Então acordei, e já não sei mais quem sou.
Foto de Miguel Rio Branco, de um ensaio sobre a Vila Mimosa, Rio
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Jornalistas anônimos
Obrigado por me receberem nesta reunião.
Meu nome é Cesar.
Sou jornalista e há seis meses não consumo notícia.
Meu vício começou cedo.
Aos 10, fui apresentado ao JB.
Tutty, Castelinho, Zózimo.
Oldemário, Evandro e Fritz.
A notícia me pegou cedo.
No rádio de manhã com Haroldo.
Na TV com Leda Hoje, JN de noite...
Daí eu fui fundo neste mundo.
Logo estava lendo O Globo.
De vez em quando, sujava as mãos de azul com um Dia.
E tome Veríssimo, Gaspari, Ancelmo.
Apicius, Millor e Boechat.
Barbara, Dora, Cora e Da-nu-za.

Rapidamente lia cinco jornais por dia.
Consumia Folha. Conheci Simão.
Se o Estadão não chegasse, tinha síndrome de abstinência.
Gazeta Mercantil, Jornal do Comércio e Tribuna!
(Valeu pelo Valor?)
Trabalhar no ramo só piorou a situação.
Passei a correr atrás de furos,
buscar personagens,
ou ao menos uma boa história para contar a meu editor
Mas o fundo do poço foi essa internet.
A compulsão cresceu.
Todos os Times e Posts, Le Monde e Asahis a um clique.
ICQ, Messenger, Twitter.
Clique, clique.
Orkut, Facebook, iPhone.
Clique, clique.
Mas agora estou curado e não consumo mais notícia.
Não tenho e-mail, blog ou iPod,
não participo de redes socias nem tenho celular!
Ah, só mais uma coisa: às vezes eu minto um pouco...
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
A árvore

Era uma árvore. Mas não como as outras. Era a sua árvore. Cada dia que passava, uma folha caia e outra crescia em seu lugar.
Às vezes caia dourada como o Sol. Em outras vinha cinza de chuva. Ou então rasgada de raiva, amassada de tristeza, verde de esperança, plana de tranquilidade, vermelha de amor, amarela de alegria. Recolhia e as guardava. Um dia, uma folha, e assim a vida seguia.
Até que um dia uma folha caiu, mas outra não cresceu em seu lugar. A princípio nem percebeu. Aos poucos, porém, foi notando os galhos nus e começou a se preocupar. Estará doente? Não a estou tratando bem?
Muito pensou sobre o assunto e neste tempo juntava folhas cinzas e amassadas, escuras e rasgadas. Foi quando percebeu que não importava o número de folhas restantes na árvore, mas a qualidade das que recolhia. Deixou de se preocupar.
Dia após dia passava pela árvore para pegar sua folha. Regozijava-se com as amarelas, admirava as douradas, acalmava-se com as planas, usufruia as vermelhas.
Até que um dia a última folha caiu. Levou-a para junto das outras e parou para admirá-las. Quantas folhas tinha acumulado! E tantas tão douradas, muitas amarelas, várias vermelhas. Observou que mesmo as cinzas tinham sua beleza, as amassadas sua valia, as rasgadas sua razão...
Morreu feliz.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Frases e paráfrases
"Gostava tanto que desgostei"
"Ficou na dúvida e acabou na certeza"
"É legal até quando deixa de ser"
"Sou uma pessoa fácil: é só fazer do meu jeito"
"Nunca soube o que dizer. Agora falo sem parar"
"Nem sempre o que te faz mal é o melhor para você"
"O problema é que não penso demais"
"Sempre tive coragem, mas nunca quis fazer"
"Tenho um ótimo ouvido, mas uma péssima boca"
"Tudo é uma questão de 'taimintendendo'"
"Eu sabia, mas não esperava..."
"Quem espera, espera melhor sentado"
"O mau caminho é sempre o mais direto"
"Trocava tudo para não mudar nada"
"Não era um diálogo, mas um monólogo a dois"
"Se melhorar, estraga"
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Problema seu/Problema meu
Não,
O problema não sou eu. O problema é seu!
Se preferes superficialidade,
o problema é seu!
Se preferes a frieza,
o problema é seu!
Se preferes a falta de carinho,
o problema é seu!
Se preferes o mau caminho,
o problema é seu!
Se preferes a incerteza,
o problema é seu!
Se preferes a falsidade,
o problema é seu!
Problema meu!
Não,
O problema não é seu. O problema sou eu!
Se quero alimentar ilusões,
o problema é meu!
Se me encanta uma sereia,
o problema é meu!
Se vivo de fantasias,
o problema é meu!
Se a mim falta alegrias,
o problema é meu!
Se acho a vida feia,
o problema é meu!
Se me perco em confusões,
o problema é meu!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Auto-ajuda
And a time for every purpose under heaven
A time to build up, a time to break down
A time to dance, a time to mourn
A time to cast away stones
A time to gather stones together" - The Byrds

Seu copo está meio cheio ou meio vazio? Perspectiva e atitude é que fazem a diferença.
Sei, todos temos nossos momentos "pra cima" e "pra baixo", mas a questão é como lidamos com eles. Desejar, sofrer, conquistar, perder fazem parte do jogo. Se quem eu quero não me quer, outra pessoa há de querer. O oceano é grande e o peixinhos são muitos e variados.
O que é preciso aprender é que só podemos controlar e mudar o que se passa dentro de nós. O sentimento ou reação do outro não estão ao nosso alcance. Apenas seja inteiro, seja verdadeiro, seja sincero e honesto consigo mesmo. O resto é consequência.
"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim" - Carlos Drummond de Andrade
Mais uma vez, a imagem inspiradora, poesia em forma de quadrinhos, vem dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Insisto: vai lá!
domingo, 30 de agosto de 2009
Confessionário
"L'essentiel est à mes yeux ceci: aimer un être n'est pas le tenir pour merveilleux, c'est le tenir pour nécessaire" - André Malraux

Eu preciso dizer que te amo...
Bem, eu já disse!
Continuo a te desejar?
E como!
Tenho ciúmes?
Não sei porque!
Quero te esquecer?
Não dá!
Porque você não olha pra mim?
Eu uso óculos...
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Conversa de táxi
Quatro da manhã. Marina e Paula tomam um táxi de volta para a Zona Oeste depois de mais uma noite de bom papo, muita champa e saideira no Jobi, claro.... Nos longos quilômetros da viagem, a conversa continua a girar sobre um tema que agitou o fim da noitada: o que fariam se ganhassem a bolada da Mega-Sena acumulada daquela semana?
- Nossa, é muito dinheiro! Não preciso de tanto. Ajudaria os amigos... – diz Marina.
- Boa medida. Não se esqueça de mim! Estou louca para fazer aquele curso na Califórnia – lembra Paula.
- Mas e se fosse você que ganhasse, o que faria?
- Claro que não vou te esquecer também, amiga! Fora isso, acho que passava um ano na esbórnia!
- Um ano, só?! Com tanta grana, acho que passava uns três anos na esbórnia!
- É mesmo, um ano pode ser pouco, principalmente para garotas que gostam de agito como nós...
- Pois é. Champa, bons restaurantes e companhia da melhor qualidade...
Já na Barra, Paula é a primeira a saltar. Logo depois que ela sai, o motorista, que até então se mantinha calado, não resiste:
- Madame, desculpe me intrometer na conversa, mas posso te perguntar uma coisa? Estou com uma curiosidade que está me matando...
- Sim...
- Onde fica essa tal de esbórnia?
Marina duvida de si mesma. “Bebi demais ou ele perguntou isso mesmo que estou pensando?”. Depois de longos segundos de hesitação, ela encontra resposta:
- Não, amigo, você não entendeu... Esbórnia não é um lugar, é um, é um, um estado de espírito!
- Ah não, madame, não fala desse negócio de espírito comigo não que sou evangélico...
- Não! Deixa eu explicar de novo. É assim como um sentimento, fazer as coisas, como estamos fazendo agora...
- O quê? Pegar um táxi às 4 da manhã?
“Ai meu Deus!”, pensou Marina, já quase ficando sóbria diante de tamanha confusão.
- Nada disso, deixa eu explicar de novo. Esbórnia é assim... viver de bem com a vida, sem preocupações, sem responsabilidades, sem precisar trabalhar, sem ter que dar satisfação para ninguém. Entendeu?
- Ah, tá, entendi. Mas onde que fica a esbórnia mesmo? Do jeito que vocês falam, deve ser legal. Bem que gostaria de passear por lá...Mais um textinho meu em colaboração para o blog da amiga Claudinha, Vim ao mundo a passeio
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Dream a little dream of you
Oi, hoje sonhei com você!Não sei por quê,
Não te vejo há tanto tempo...
Ah, é isso:
A saudade está batendo.
Quando se gosta de alguém,
Distância
Não é esquecimento.
